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O primeiro crime do aquecimento global: o bacalhau sumiu

O aumento de temperatura, que com o esforA�o internacional atual deve chegar a 2,7A�C atA� o fim do sA�culo, afetarA? a biodiversidade, a disponibilidade de A?gua potA?vel e a economia internacional

O acrA�scimo de 2,7 A�C nas temperaturas globais, de acordo com o A?ltimo relatA?rio da ConvenA�A?o da NaA�A�es Unidas para MudanA�as ClimA?ticas (UNFCCC), terA? impacto direto sobre os cardumes em um dos peixes mais apreciados do mundo: o bacalhau. Um estudo publicado na revista cientA�fica Science na A?ltima quinta-feira (28) revela como o aquecimento das A?guas do Golfo do Maine, na costa Nordeste americana, tem relaA�A?o direta com o desaparecimento do bacalhau em New England, nos Estados Unidos. Segundo a pesquisa, as altas temperaturas da A?gua diminuem a reproduA�A?o do peixe – naturalmente um animal de mares gelados. Em novembro de 2014, a populaA�A?o de bacalhau na regiA?o jA? estava 97% abaixo do nA�vel considerado sustentA?vel pelos biA?logos americanos.

A� a primeira vez que os pesquisadores conseguem ligar aumento das temperaturas ao desaparecimento do peixe, com dados e mediA�A�es concretas. Para isso, a equipe de pesquisadores de seis instituiA�A�es diferentes, como a AdministraA�A?o Nacional OceA?nica e AtmosfA�rica dos Estados Unidos (Noaa, na sigla em inglA?s), a Universidade do Maine e o Instituto Salk para Estudos BiolA?gicos, analisou dados sobre a temperatura da superfA�cie da A?gua desde 1982. As conclusA�es mostraram que, entre 2004 e 2013, as A?guas Golfo do Maine esquentaram mais rA?pido que 99,9% dos oceanos do planeta.

SA?o duas as explicaA�A�es para o aumento acentuado de temperatura: o aquecimento da atmosfera, mas tambA�m a alteraA�A�es na Corrente do Golfo, que comeA�ou a trazer A?guas mais quentes para a regiA?o do Maine.

Uma em cada seis espA�cies pode ser extinta devido A�s mudanA�as climA?ticas

“VerA�es intensos no HemisfA�rio Norte estA?o ligados ao aquecimento do A?rtico”, diz estudo

DeclA�nio – Apesar de sA? agora o aumento da temperatura das A?guas ter sido cientificamente registrado, a situaA�A?o frA?gil do bacalhau nA?o A� novidade. HA? tempos a indA?stria pesqueira percebeu que a populaA�A?o de peixes estava diminuindo e os esforA�os para reverter o quadro culminaram em uma ampla polA�tica de restriA�A?o de pesca em 2010. As novas regras proibiram a captura recreativa da espA�cie e, nos A?ltimos trA?s anos, diminuA�ram a cota que poderia ser pescada comercialmente em 90%. Tudo isso, contudo, nA?o foi suficiente para resgatar a populaA�A?o do peixe, justamente porque as cotas foram estabelecidas sem considerar os efeitos do aumento de temperatura. Como o aquecimento das A?guas tambA�m A� um fator de tensA?o populacional para os peixes, a quantidade de pesca permitida continuava muito alta.

“Quando uma espA�cie de peixe fica ameaA�ada, geralmente nos perguntamos se a causa A� a pesca ou o clima, mas sA?o os dois”, disse em uma coletiva de imprensa a pesquisadora Janet Nye, da Universidade de Stony Brook, nos Estados Unidos. “Se o A?nico stress que esses peixes sofrem fosse o aumento de temperatura, provavelmente eles conseguiriam se recuperar.”

A relaA�A?o entre a temperatura e a quantidade de peixes nA?o A� nova, mas os dados nunca foram incluA�dos nos modelos de proteA�A?o dos animais. “(O estudo) A� um alerta para integrarmos todos os dados sobre clima, ecologia e manutenA�A?o das espA�cies”, complementou Kathy Mills, cientista do Instituto de Pesquisa do Golfo do Maine.

‘Metas climA?ticas brasileiras estA?o na direA�A?o certa, mas poderiam ser mais ambiciosas’, diz Carlos Rittl, secretA?rio-executivo do ObservatA?rio do Clima

“As energias renovA?veis despertam interesse econA?mico em segurar as mudanA�as climA?ticas”, diz o economista francA?s Christian StoffaA�s

Primeiros indA�cios – Mais que provar o impacto das mudanA�as climA?ticas sobre a populaA�A?o de bacalhau pescado na regiA?o americana de New England, a nova pesquisa prenuncia as consequA?ncias devastadoras das mudanA�as climA?ticas. O aumento de temperatura global nA?o significa simplesmente que enfrentaremos dias mais quentes, mas que toda a configuraA�A?o mundial, em termos ecolA?gicos, econA?micos e sociais, passarA? por mudanA�as.

O relatA?rio divulgado pela ConvenA�A?o de MudanA�as ClimA?ticas da ONU na A?ltima sexta-feira (30) mostrou que, com os atuais comprometimentos dos 146 paA�ses para reduzir emissA�es de gases do efeito estufa (que hoje sA?o responsA?veis por 86% do carbono que chega A� atmosfera), serA? possA�vel diminuir as emissA�es em 8% atA� 2025 e em 9% atA� 2030. Isso quer dizer que, se comparadas A�s do perA�odo entre 1990 e 2010, as emissA�es de agora atA� 2030 terA?o seu ritmo diminuA�do em 60%. Apesar de representarem um passo na direA�A?o certa, de um mundo de baixo carbono, os nA?meros nA?o tA?m a ambiA�A?o necessA?ria: com essas metas, o aquecimento atA� o final do sA�culo deve ser de 2,7A�C. Ou seja, a meta de limitar o aumento de temperatura em 2A�C, estabelecido na CA?pula do Clima de 2010, em Cancun, nA?o serA? alcanA�ado.

“As metas conseguem limitar a projeA�A?o de aumento de temperatura para 2,7A�c atA� 2100, o que nA?o A� suficiente de maneira alguma, mas jA? A� um valor menor do que o estimado por muitos antes de as metas serem apresentadas”, disse Christiana Figueres, secretA?ria-executiva da ConvenA�A?o de MudanA�as ClimA?ticas da ONU.

Visto de maneira isolada, o valor de 2,7 graus pode nA?o parecer alarmante. Contudo, o planeta, assim como os humanos, os animais e as plantas, sA?o vulnerA?veis mesmo ao aumento mais sutil de temperatura. Basta considerar a temperatura corporal do homem: o natural A� 37A�C e um aumento de apenas 0,8A�C caracteriza febre. Se essa pequena alteraA�A?o A� capaz de causa mal-estar e doenA�a nos humanos, o que dizer de 2,7A�C graus para o planeta?

Estimativas feitas por cientistas revelam que, com esse aumento, uma porcentagem 26% maior de pessoas irA? sofrer com a escassez de A?gua atA� 2080, em comparaA�A?o com a taxa de 1980. Nesse mesmo ano, o nA?mero de pessoas expostas a enchentes serA? seis vezes maior. A biodiversidade tambA�m serA? afetada, e um bom exemplo sA?o os corais: um terA�o deles serA? degradado devido A�s A?guas mais quentes nas prA?ximas dA�cadas. HaverA? tambA�m reflexos para a economia, jA? que o calor deve diminuir a produtividade de trabalhadores em 20% atA� 2100.

A� possA�vel, porA�m, que os seres vivos possam se adaptar a um mundo mais quente. Um estudo tambA�m publicado na Science, em junho deste ano, mostrou que alguns corais da Grande Barreira de Corais da AustrA?lia jA? desenvolveram genes para sobreviver no calor. Os especialistas, no entanto, veem esses estudos com cautela.

“Algumas espA�cies devem se adaptar a um mundo mais quente. Mas hA? dois pontos importantes: de quA?o mais quente estamos falando? E quais as consequA?ncias da perda daqueles animais que nA?o conseguirem sobreviver?” disse a VEJA a jornalista americana Elizabeth Kolbert, autora do best-sellerA sexta extinA�A?o, livro sobre os impactos do homem na natureza. “Mesmo que apenas 10% das espA�cies vivas do planeta sejam perdidas, A� muita coisa. AlA�m disso, devemos lembrar que tudo no planeta A� conectado: um animal extinto afeta aquele que se alimentava dele, por exemplo.”

De acordo com os cientistas, o colapso do bacalhau da regiA?o americana de New England funciona como um alerta. O compromisso com a prevenA�A?o do aumento das temperaturas nA?o deve ser entregue apenas a representantes nacionais – as cidades devem comeA�ar a estudar como desenvolver programas de sustentabilidade locais, e a iniciativa privada jA? percebeu que pode comeA�ar a enxergar a questA?o ambiental como uma possibilidade de investimento e, por que nA?o, lucro. O mundo, e o bacalhau do nordeste americano, agradece.

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Redação Brasil (m)

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