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A briga da Austrália com o Facebook que provocou ‘apagão’ de notícias na rede social

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A queda de braço entre o Facebook e o governo da Austrália em relação ao projeto de lei que obriga plataformas digitais a pagar por conteúdo jornalístico ganhou os holofotes no mundo todo

 

A queda de braço entre o Facebook e o governo da Austrália em relação ao projeto de lei que obriga plataformas digitais a pagar por conteúdo jornalístico ganhou os holofotes no mundo todo.

No capítulo mais recente do impasse, o Facebook reagiu à proposta bloqueando o conteúdo do seu feed de notícias no país — e os australianos acordaram nesta quinta-feira (18/2) com os sites de notícias locais e globais indisponíveis na rede social.

A decisão do Facebook foi vista como arrogante e decepcionante pelo primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, que disse que seu governo não se intimidará.

A primeira lei do mundo desse tipo tem como objetivo resolver a questão da perda de receita de publicidade dos veículos de imprensa para empresas de tecnologia americanas, a princípio Google e Facebook.

Se aprovada, a nova legislação pode ter consequências globais para as empresas de tecnologia e a forma como acessamos notícias online.

Como chegamos até aqui?

Não é de hoje que há preocupações sobre o domínio de mercado das empresas de tecnologia sobre as organizações jornalísticas.

O Google é o mecanismo de busca dominante na Austrália e foi descrito pelo governo como um serviço quase essencial, com pouca concorrência de mercado.

E as redes sociais são uma fonte importante de notícias.

De acordo com o Relatório de Notícias Digitais 2020 do Instituto Reuters, 52% dos australianos questionados em uma pesquisa usaram as redes sociais como fonte de notícias. O Facebook aparece em primeiro lugar, seguido pelo YouTube e Facebook Messenger.

Em 2018, um órgão regulador do governo australiano abriu uma investigação sobre o impacto do Google e do Facebook na concorrência com empresas jornalísticas e na publicidade.

A investigação da Comissão Australiana de Concorrência e Consumidores (ACCC, na sigla em inglês) encontrou um desequilíbrio de poder entre as empresas de tecnologia e a imprensa.

Diante disso, o órgão regulador recomendou a introdução de um código de conduta que, segundo ele, nivelaria a situação.

Em julho do ano passado, o governo australiano apresentou um projeto de lei para fazer cumprir o código, o que gerou ameaças por parte do Facebook e do Google de retirar seus serviços do país.

O que diz o projeto de lei?

O projeto de lei pede às empresas de tecnologia que paguem pelo conteúdo, embora não defina quanto ele vale.

A lei permitiria que as empresas de notícias negociassem em bloco com as companhias de tecnologia o conteúdo que aparece em seus feeds de notícias e resultados de pesquisa.

Se as negociações fracassassem, a questão poderia ser arbitrada pela Autoridade Australiana de Comunicação e Mídia.

Logos do Google e Facebook

Getty Images Inicialmente Facebook e Google se opuseram fortemente à lei de pagamento por notícias proposta pelo governo australiano

As penalidades podem chegar a 10 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 42 milhões) por violação, ou 10% do faturamento local da empresa.

O governo diz que o código se concentrará inicialmente no Google e no Facebook, mas pode ser expandido para outras empresas de tecnologia.

Por que a Austrália está promovendo essa lei?

O governo argumenta que as gigantes da tecnologia deveriam pagar às redações uma quantia “justa” por seu jornalismo.

Além disso, afirma que o apoio financeiro é necessário para a indústria de notícias australiana, uma vez que o fortalecimento da imprensa é vital para a democracia.

As empresas jornalísticas, incluindo a News Corp Australia, que faz parte do conglomerado de mídia do magnata Rupert Murdoch, têm feito um forte lobby para que o governo obrigue a colocar as empresas de tecnologia na mesa de negociações em meio a um declínio de longo prazo na receita de publicidade.

Mas a rede social comandada por Mark Zuckerberg argumenta que “a troca de valor entre o Facebook e os editores é a favor dos editores”, de acordo com William Easton, gerente da plataforma para a Austrália e Nova Zelândia, e que gera centenas de milhões de dólares de receita para a imprensa.

“Os editores optam por postar notícias no Facebook, já que isso permite a eles vender mais assinaturas, aumentar sua audiência e aumentar a receita de publicidade”, acrescenta.

Mas o órgão de fiscalização da concorrência da Austrália — citado pela agência de notícias AFP — diz que para cada US$ 100 gastos em publicidade online, o Google capta US$ 53, o Facebook leva US$ 28 e o resto é dividido entre os demais, tirando receita dos meios de comunicação.

Enquanto isso, as receitas do Google aumentaram acentuadamente no mesmo período, chegando a mais de US$ 160 bilhões globalmente em 2019.

A reação do Facebook

Em repúdio à proposta, o Facebook anunciou que impediria os usuários australianos de compartilhar ou ver notícias.

De acordo com a gigante da rede social, o projeto de lei “fundamentalmente interpreta mal a relação entre nossa plataforma e os editores”

Logo do Facebook

Reuters Facebook diz que tomou a decisão ‘com pesar no coração’

O Facebook afirma ainda que a legislação deixou a empresa “diante de uma escolha difícil: tentar cumprir uma lei que ignora a realidade dessa relação ou parar de permitir conteúdo noticioso em nossos serviços na Austrália”.

“Com pesar no coração, estamos escolhendo a última”, acrescentou.

A proibição foi imposta com efeito imediato, e os usuários da rede social na Austrália acordaram sem conseguir acessar notícias na plataforma.

Pessoas fora do país também não conseguem ler ou acessar nenhuma publicação de notícias australianas.

Várias páginas de saúde e emergência do governo também chegaram a ser bloqueadas. Posteriormente, o Facebook afirmou que foi um erro — e muitas dessas páginas estão no ar novamente.

Repercussão do bloqueio

Em comunicado publicado no Facebook, o premier australiano, Scott Morrison, disse que grandes empresas de tecnologia podem estar mudando o mundo, mas isso não significa que devam administrá-lo.

“As ações do Facebook para “desfazer a amizade” (unfriend) com a Austrália hoje, cortando serviços de informação essenciais sobre saúde e serviços de emergência, foram tão arrogantes quanto decepcionantes”, escreveu.

“Estou em contato regular com líderes de outras nações sobre essas questões. Simplesmente não seremos intimidados.”

Morrison fez um apelo ao Facebook para trabalhar de forma construtiva com o governo, “como o Google demonstrou recentemente de boa fé”.

O secretário do Tesouro do país, Josh Frydenberg, disse que a proibição de informações noticiosas teve um “enorme impacto na comunidade”. Cerca de 17 milhões de australianos visitam a rede social todos os meses.

Outras autoridades foram menos diplomáticas. O primeiro-ministro da Austrália Ocidental, Mark McGowan, acusou a empresa de “se comportar como um ditador norte-coreano”.

Outros sugeriram que o vácuo de notícias poderia ser preenchido por desinformação e teorias da conspiração. Em um tuíte, a editora Lisa Davies do jornal Sydney Morning Herald descreveu a reação do Facebook como uma “birra”.

Já a diretora da organização Human Rights Watch na Austrália afirmou que o Facebook está censurando o fluxo de informações no país — o que classificou como uma “reviravolta perigosa nos acontecimentos”.

“Cortar o acesso a informações vitais para um país inteiro na calada da noite é inconcebível”, declarou Elaine Pearson.

Enquanto isso, muitos cidadãos australianos estão irritados com a perda repentina de acesso a fontes confiáveis ??e autorizadas de notícias.

“Parece obviamente muito restritivo em relação ao que o Facebook permitirá que as pessoas façam no futuro, não apenas na Austrália, mas em todo o mundo”, disse Peter Firth, que está em Sydney, à BBC.

Amelia Marshall afirmou, por sua vez, que não conseguia acreditar na decisão da empresa “no meio de uma pandemia”.

“Tomei a decisão de excluir permanentemente minha conta do Facebook”, acrescentou.

Como o Google reagiu ao projeto de lei?

O Google ameaçou inicialmente retirar seu mecanismo de busca da Austrália se a lei proposta for aprovada.

Mas agora disse que concordava em pagar à News Corp de Murdoch pelo conteúdo de sites de notícias do seu conglomerado de mídia.

Página de pesquisa do Google exibida em smartphone

Reuters Google acabou fechando acordo para remunerar conteúdo jornalístico na Austrália

A News Corp afirmou, por sua vez, que compartilhará suas notícias em troca de “pagamentos significativos”.

Como parte do acordo de três anos, a News Corp anunciou que o grupo e o Google iriam desenvolver uma plataforma de assinaturas, dividir a receita de publicidade e investir em videojornalismo no YouTube.

O Google também anunciou acordos com várias outras empresas de mídia australianas, incluindo um pagamento anual de 30 milhões de dólares australianos à Nine Entertainment.

Não está claro que atitude o Google pretende tomar se a proposta de lei for aprovada.

A lei australiana pode abrir um precedente global?

Alguns políticos australianos e especialistas em mídia acreditam que sim.

“Isso vai se espalhar pelo mundo todo. Vocês vão sair de todos os mercados, vão?”, disse o senador australiano Rex Patrick ao Google.

Diferentemente do Google e do Facebook, a Microsoft deu logo seu apoio ao projeto de lei.

“O código tenta razoavelmente resolver o desequilíbrio do poder de barganha entre as plataformas digitais e as empresas de notícias australianas”, declarou a companhia de software em fevereiro.

Há também uma disputa diferente — mas semelhante — acontecendo na Europa.

Uma nova regra polêmica da União Europeia sobre direitos autorais diz que os mecanismos de busca e agregadores de notícias deveriam pagar aos sites de notícias pelos links.

Na França, editores fecharam recentemente um acordo com o Google sobre como isso deve funcionar.

Mas apenas alguns desses acordos foram assinados com jornais franceses importantes ??— o que torna muito diferente dos mais rígidos e abrangentes planos australianos.

E tem havido outros pontos de tensão entre alguns países e grandes empresas de tecnologia, em que governos ou blocos como a União Europeia têm analisado a regulamentação das empresas em questão.

A União Europeia está tentando combater o conteúdo ilegal e prejudicial em plataformas digitais e controlar o uso de dados dos usuários; enquanto nos EUA, representantes das gigantes de tecnologia foram ouvidos em audiência no Congresso no ano passado sobre sua posição dominante no mercado.

Próximos passos

O projeto de lei tem amplo apoio político e foi aprovado na quarta-feira (17/2) pela Câmara dos Representantes.

A proposta segue agora para o Senado, que deve votá-la na semana que vem.

Se for aprovado, o código deve ser revisado depois de um ano.

 

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Tecnologia

O Google pode estar coletando seus dados mesmo na navegação anônima. Entenda

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Ação judicial nos EUA prevê indenização de US$ 5 mil para milhões de internautas por violação de privacidade

Google: empresa faz parecer que o modo de navegação privada dá aos usuários mais controle sobre seus dados, diz advogada (NurPhoto / Colaborador/Getty Images)

Quando os usuários do Google navegam no modo anômio dos browsers, será que sua atividade na web está mesmo oculta?

A gigante das buscas diz que ativar o modo anônimo no Chrome, ou a “navegação privada” em outros navegadores, significa que a empresa não “se lembrará de sua atividade”. Mas uma juíza com um histórico de questionar gigantes do Vale do Silício sobre sua coleta de dados pessoas levantou dúvidas na quinta-feira se o Google está sendo realmente franco sobre as informações pessoais que está recolhendo dos usuários.

Em uma audiência nem San Jose, Califórnia, a juíza distrital dos EUA Lucy Koh disse que está “perturbada” com as práticas de coleta de dados do Google, conforme descritas em uma ação judicial coletiva que diz que as promessas de navegação privada da empresa não passam de um “estratagema”.

A ação busca indenização de US$ 5 mil para cada um dos milhões de pessoas cuja privacidade foi comprometida desde junho de 2016.

Pesando o empenho do Google de obter o arquivamento do processo, Koh disse que acha “incomum” que a empresa faça um “esforço extra” de coleta de dados se não usar de fato as informações para construir perfis de usuário ou fazer publicidade direcionada.

O Google se tornou um alvo de reclamações antitruste no ano passado, feitas por autoridades estaduais e federais, bem como por empresas, acusando-o de abusar de seu domínio nos mercados de publicidade digital e de buscas on-line. Enquanto o Congresso busca soluções legislativas, os agentes antitruste federais e procuradores-gerais estaduais em todo o país estão avançando com processos judiciais contra o Google e o Facebook que acusam as empresas de violar as leis antitruste.

Koh é uma forte crítica das políticas de privacidade da gigante. Em um caso notável, ela forçou o Google a divulgar sua
varredura de e-mails pessoais para construir perfis e direcionar publicidade.

Uso de código como atalho

No processo em questão, a empresa de tecnologia é acusada de usar partes de seu próprio código em sites que contratam seus serviços de análise e publicidade para rastrear o histórico de navegação supostamente privado dos usuários e enviar cópias para os servidores do Google.

O Google faz parecer que o modo de navegação privada dá aos usuários mais controle sobre seus dados, diz Amanda Bonn, uma advogada que representa os usuários, a Koh.

— Mas, na realidade, o Google está dizendo que basicamente há muito pouco que você pode fazer para nos impedir de coletar seus dados, e é isso que você deve supor que estamos fazendo — afirma ela.

O Google argumenta, que toda vez que os internautas usam o modo de navegação anônima do Chrome, um aviso de página inteira deixa claro que outras pessoas que usam o dispositivo não verão sua atividade, mas que ela ainda pode estar visível para, entre outros, sites visitados e provedor de serviços de internet.

Andrew Schapiro, advogado do Google, disse que a política de privacidade da empresa “divulga expressamente” suas práticas.

— A coleta de dados em questão é divulgada — disse ele.

Outro advogado do Google, Stephen Broome, disse que os proprietários de sites que contratam a empresa para usar análises ou outros serviços estão bem cientes da coleta de dados descrita no processo.

Mas a tentativa de Broome de minimizar as preocupações com a privacidade apontando que o próprio site do sistema de tribunais federais usa os serviços do Google acabou fracassando.

A juíza exigiu uma explicação “sobre o que exatamente o Google faz”, enquanto expressou receio de que os visitantes do site do tribunal estão inadvertidamente divulgando informações para a empresa.

— Quero uma declaração do Google sobre quais informações eles estão coletando sobre os usuários do site do tribunal e para que isso é usado — disse Koh aos advogados da empresa.

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Roubo de contas foi o principal crime financeiro on-line de 2020, diz empresa; veja como se proteger

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Relatório da companhia de segurança digital Kaspersky apontou crescimento de 20% nesse tipo de golpe no último ano.

Aumento do uso de plataformas digitais impulsionou golpes. — Foto: Altieres Rohr/G1

Os roubos de contas financeiras pela internet cresceram durante o ano de 2020, segundo um relatório da empresa de cibersegurança russa Kaspersky. O salto para esse tipo de ataque foi de 20% em relação a 2019 e representou mais da metade (54%) das transações fraudulentas ao redor do mundo.

A companhia apontou que o crescimento do uso de ferramentas digitais durante a pandemia, como o internet banking e o comércio eletrônico, impulsionou o interesse dos criminosos e abriu mais brechas para golpes.

Grande parte desses ataques acontecem com o uso de engenharia social, quando um criminoso convence a vítima a passar informações (saiba como se proteger abaixo).

Os esquemas mais comuns para tomar as contas financeiras são os de “salvadores” e de “investidores”, segundo a Kaspersky.

Os “salvadores” fingem ser especialistas em segurança e ligam para clientes de bancos como se fossem funcionários que estão oferecendo ajuda.

Eles avisam sobre cobranças ou pagamentos suspeitos e pedem para que a vítima confirme dados de sua identidade e até mesmo o token de acesso à conta (muitas vezes disponível em um aplicativo do banco). Em outros cenários, eles podem solicitar que a vítima instale um aplicativo de acesso remoto, como se isso fosse necessário para solucionar o problema.

Já os “investidores” fingem ser funcionários de uma empresa de investimentos ou consultores do banco e pedem dados que dão acesso às contas bancárias.

A análise foi feita a partir de estatísticas compartilhadas de forma anônima por meio de uma tecnologia da empresa e se referem aos eventos detectados de janeiro a dezembro de 2020, segundo a Kaspersky.

Como se proteger

Para evitar de cair em golpes é preciso sempre desconfiar de contatos inesperados. Em casos como os que foram exemplificados pela Kaspersky, é importante nunca ceder informações sensíveis como token de acesso ou senha do banco.

Caso desconfie de algum contato, é recomendável não seguir com o atendimento e realizar uma ligação para a instituição financeira que supostamente queria te atender.

Golpes podem chegar por SMS, e-mail, WhatsApp ou pelas redes sociais. Ao receber uma mensagem de seu banco ou financeira, é importante seguir uma lista básica de prevenção:

  • Nunca clique em links antes de fazer uma boa checagem da mensagem;
  • Tenha cuidado extra com links encurtados, verifique os outros itens da mensagem com ainda mais cuidado;
  • Nunca forneça senhas ou tokens fora do aplicativo ou site oficial do banco (nem mesmo pelo telefone);
  • Não compartilhe código de verificação, como do WhatsApp, recebido por e-mail ou SMS;
  • Verifique o número de onde foi enviado o SMS – números desconhecidos podem significar golpe;
  • Cheque sempre o remetente do e-mail para verificar se é um endereço válido de seu banco;
  • Nas redes sociais, veja se a conta da instituição financeira é verificada;
  • Desconfie de promoções muito generosas.

 

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‘Ignoradas’ por Clubhouse, pessoas com deficiência pedem redes sociais mais acessíveis

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Além da “clara” limitação para pessoas surdas, o aplicativo foi alvo de reclamação de pessoas cegas — já que foi disponibilizado sem configurações que permitam a utilização de leitores de tela

Duas informações são consideradas importantes para você se familiarizar com a rede social mais falada do momento, o Clubhouse.

Primeiro, é uma plataforma com salas de conversas ao vivo, apenas por áudio.

Segundo, para entrar, são necessárias as seguintes condições: ter um iPhone e ser convidado por um amigo que já está usando o aplicativo.

Mas, para pessoas com deficiência auditiva e visual, uma terceira questão sempre aparece: “ela é acessível?”.

E a resposta para esse caso, pelo menos num primeiro momento, é: não.

“Pessoas com deficiência são acostumadas a ser invisíveis, mas eu me recuso a fazer isso”, disse à BBC News Brasil a escritora Paula Pfeifer, que usou suas redes sociais para apontar problemas de acessibilidade na nova plataforma — e foi criticada por isso.

Com deficiência auditiva e líder do projeto Surdos Que Ouvem, ela chegou a ser acusada de fazer “militância chata” por levantar a voz para um problema recorrente que enfrenta ao tentar participar de “novidades” na internet.

“Desde que me posicionei, eu preciso ‘provar’ que acessibilidade é importante. Acessibilidade não é um luxo. Na verdade, ela é pré-requisito básico de produtos e serviços e deve ser pensada desde a sua concepção, e não para ‘tapar buraco’ depois”.

Além da “clara” limitação para pessoas surdas, o aplicativo foi alvo de reclamação de pessoas cegas — já que foi disponibilizado sem configurações que permitam a utilização de leitores de tela.

https://www.instagram.com/p/CK_wFclhccF/

Lançado em maio de 2020 em versão beta (testes), o Clubhouse ganhou grande popularidade no Brasil e em boa parte do mundo nas últimas semanas.

Figuras conhecidas, como o empresário e fundador da Tesla Elon Musk e a apresentadora Oprah Winfrey, participaram de transmissões ao vivo e ajudaram a popularizar ainda mais a plataforma. No Brasil, nomes como Caetano Veloso e Anitta apareceram por lá.

Segundo o portal Statista, especializado em estatísticas e bases de dados, o número de usuários do Clubhouse em janeiro era de 2 milhões, ante 600 mil em dezembro de 2020.

Analistas que fazem esse monitoramento, porém, já apontam até 10 milhões de pessoas conectadas em fevereiro.

Na loja da Apple, o aplicativo criado por Rohan Seth, ex-funcionário do Google, e Paul Davison, empreendedor do Vale do Silício, aparecia como o segundo mais baixado em 16 de fevereiro.

Mas, apesar de todo esse interesse, pessoas com deficiência lembram que, mais uma vez, elas foram deixadas para depois.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, cerca de 466 milhões de pessoas tem algum nível de deficiência auditiva no mundo. 596 milhões de pessoas tinham deficiência visual, sendo 43 milhões de pessoas cegas, segundo levantamento recém-divulgado da The Lancet Global Health.

‘Não olham para a acessibilidade digital’

Paula Pfeifer sorri para foto

Marcos Pinto “Pessoas com deficiência são acostumadas a ser invisíveis, mas eu me recuso a fazer isso”, diz a escritora Paula Pfeifer, que criticou o Clubhouse

Para Marcelo Sales, designer, professor e especialista em acessibilidade digital, “já passou da hora” de as empresas pensarem em ferramentas inclusivas desde a concepção de um produto. Foi aí, na sua avaliação, a principal falha do Clubhouse.

“É utopia achar que teremos produtos 100% acessíveis. Eu posso até compreender que é um produto novo, que ainda precisa ser validado, em teste. O que não faz sentido é não incluir ferramentas que podem estar num primeiro momento e informar ao público o que estão planejando para um segundo momento. Ficou claro que eles não olharam pra isso.”

Um exemplo de algo que poderia estar num “primeiro momento” seria disponibilizar botões e outros elementos essenciais codificados que pudessem ser captados por um leitor de tela. É algo “ridiculamente fácil de ser implementado”, segundo Sales.

Sem os leitores de tela funcionando, pessoas cegas e com baixa visão usuárias de smartphones não conseguem saber que elementos há ali e onde precisam clicar.

Foi o que aconteceu com o jornalista e ativista Gustavo Torniero, que tentou participar de conversas no Clubhouse quando o aplicativo começou a se popularizar.

Após duas horas participando de uma sala, Torniero teve a chance de falar. Mas não conseguiu abrir o microfone, pela falta de acessibilidade para leitores de tela.

“Foi frustrante. Imagina você ouvir a moderadora da sala (que obviamente não sabia de nada disso e era uma fofa) dizer: ‘Torniero, você precisa ativar o botão para aceitar o convite’. Mas não tem como eu fazer isso se o app não tem uma boa acessibilidade para pessoas cegas”, relatou o jornalista no Twitter.

O jornalista contou que, na última semana, “a plataforma realizou algumas atualizações e corrigiu diversos problemas de acessibilidade para leitores de tela”, apesar de limitações no uso do recurso para falar em uma sala. “Não é o ideal, mas é um começo.”

“O fato de o Clubhouse ter problemas de acessibilidade não me impede de entender o propósito da plataforma e os méritos do produto. Eu quero sim estar lá, porque minha visão é de que as pessoas com deficiência precisam ocupar vários espaços. Quero estar na plataforma para fomentar, inclusive, debates sobre acessibilidade. E vou continuar em busca disso”, completou Torniero à BBC News Brasil.

Em nota publicada no fim de janeiro, os fundadores do Clubhouse disseram que trabalham para incluir mais acessibilidade ao aplicativo, após uma nova rodada de financiamento, sem especificar quais melhorias são previstas.

A BBC News Brasil tentou entrar em contato com o Clubhouse, mas a empresa informou que, diante da alta demanda, não tem como atender todos os pedidos da imprensa.

E os surdos numa rede de áudio?

Página mostra membros em sala do Clubhouse

Reprodução
Fundadores do Clubhouse disseram que trabalham para incluir mais acessibilidade ao aplicativo, sem especificar quais melhorias são previstas.

Mas, afinal, como uma uma rede que é baseada em áudio pode ser acessível a pessoas surdas?

Marcelo Sales explica que a pandemia — e a maior dependência dos produtos digitais que veio com ela — acelerou o processo das empresas olharem mais para a acessibilidade.

Ferramentas de videoconferência como o Zoom e o Google Meets, por exemplo, incluíram serviços de acessibilidade, como a possibilidade de incluir legendas automatizadas em tempo real.

Redes sociais como Instagram e Facebook também já incluíram na plataforma, assim como o YouTube, a geração automática de legendas.

“O problema é que a assertividade desses produtos ainda não é 100%. Há alguns erros. Imagina ter uma conversa e a legenda passar alguma informação séria errada que pode afetar a interpretação. Isso é algo que tem que ser feito com parcimônia e precisa ser aperfeiçoado”, ponderou o especialista em acessibilidade digital.

Manualmente, alguns produtores de podcasts disponibilizam uma transcrição de episódios e conversas — algo que não deve ocorrer com o Clubhouse, já que as conversas não ficam salvas após uma sala ser encerrada.

Para Pfeifer, do “Surdos que Ouvem”, toda a discussão iniciada em suas redes sociais não se resume ao Clubhouse, mas o aplicativo se torna um “case que escancara o “capacitismo [discriminação contra pessoas com deficiência] generalizado da sociedade”.

“É a necessidade de se jogar luz na questão da falta de acessibilidade de uma maneira geral. A sociedade pouco se importa com isso. Se as pessoas com deficiência não se posicionarem, levantarem a voz, apontarem o erro, ninguém fará isso”, argumenta Pfeifer.

Também professor de acessibilidade digital em cursos de “experiência de usuário”, Marcelo Sales alerta que poucos profissionais conseguem a formação técnica para trabalhar com o tema, já que muitas instituições de ensino “ignoram” essa disciplina.

As empresas, por sua vez, são formadas por equipes que nem sempre pararam para pensar nas dificuldades enfrentadas por pessoas com deficiência.

Sales vai além e destaca ainda que empresários do mundo digital precisam parar de pensar em acessibilidade como um “complemento” ou como “um favor” feito às pessoas.

“O que custa caro é a falta de planejamento. Do ponto de vista do negócio, precisam perceber os milhões de potenciais consumidores que ficam de fora de seu produto. Não só quem tem deficiência, mas as pessoas ao redor que podem tomar as dores. Precisam enxergar como potencial de negócio”.

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Google fecha acordo de US$ 30 milhões com empresa de comunicação australiana após resistência a nova lei

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O buscador também já firmou contrato com outras duas organizações de notícias, a News Corp e a Seven West Media. Em janeiro o Google ameaçou bloquear o buscador no país para evitar pagamento aos jornais.

Google fecha acordo com pelo menos três meios de comunicação para veiculação de notícias na Austrália. — Foto: Mike Blake/Reuters/Arquivo

O Google fechou um acordo com a empresa australiana de notícias Nine Entertainment, segundo anúncio feito no jornal The Sydney Morning. O acordo de US$ 30 milhões dará ao buscador acesso aos principais meios de comunicação da empresa, como o próprio jornal.

Além da Nine Entertainment, o Google também concluiu negociações com pelo menos outras duas grandes empresas de jornalismo para poder continuar veiculando notícias na Austrália, a News Corp e a Seven West Media.

O acordo surge após o governo australiano criar uma lei que obriga os gigantes digitais a pagarem aos meios de comunicação pelo uso de notícias. Inicialmente o Google foi resistente à medida e em janeiro ameaçou bloquear o buscador no país.

A News Corp foi o primeiro dos conglomerados a ter acordo firmado. Ele tem o prazo de três anos e concederá ao Google o acesso às notícias de jornais, como o Wall Street Journal e o New York Post nos Estados Unidos, o Times e o Sun no Reino Unido e jornais locais, o Australian e Sky News na Austrália.

O acordo, que também abrange conteúdos em vídeo e áudio, foi feito por uma “quantia significativa”, segundo à News Corp, além de dar a empresa participação na receita de anúncios no Google.

A Nine Entertainment possui dois jornais The Sydney Morning e o The Age. Também é a dona da “The Australian Financial Review” e possui estações de rádio e canais de televisão, segundo a publicação no jornal.

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Escassez global de chips começa a atingir indústrias além da eletrônica

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Escassez de semicondutores está impactando indústria pesada de alumínio, com redução na demanda do setor automotivo, que cortou produção

Semicondutor: escassez de material é causada por forte demanda por eletrônicos e carros cada vez mais sofisticados (Wikimedia Commons/Wikimedia Commons)

A escassez mundial de semicondutores que paralisou algumas linhas de produção de montadoras começa a causar preocupação no mercado de alumínio, quando os principais fornecedores se preparam para uma potencial queda das vendas.

A Norsk Hydro, maior fornecedora de alumínio europeia, diz que as montadoras mantiveram as compras, mas a demanda pode ser impactada se a escassez continuar, disse o diretor financeiro da empresa, Pal Kildemo, em entrevista à Bloomberg TV na sexta-feira.

O déficit global de semicondutores é causado pela explosão da demanda por eletrônicos e veículos cada vez mais sofisticados, que processam grandes quantidades de dados. Enquanto isso, gargalos de fornecimento relacionados à pandemia agravaram o problema, o que levou fabricantes de chips a investirem bilhões de dólares em novas unidades para lidar com o aperto, mas a perspectiva deve piorar até que a situação seja aliviada.

A escassez de chips deve eliminar US$ 61 bilhões em vendas apenas das montadoras, mas, embora difícil de quantificar neste estágio inicial, o impacto para a indústria eletrônica pode ser muito maior.

Qualquer queda das vendas seria um golpe para a Norsk Hydro, que superou as estimativas de lucro no quarto trimestre com a recuperação das vendas para os setores automotivo e de construção. Como um metal amplamente utilizado em carros e aviões, o alumínio foi atingido de forma particularmente forte nos primeiros estágios da crise e sua recuperação ficou abaixo de outros metais, incluindo o cobre e o estanho.

Por enquanto, as vendas automotivas são um ponto positivo para a empresa, mesmo com restrições e novas variantes do coronavírus ameaçando a demanda.

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Hacker vende base de dados com celulares e rede social de 8 milhões de brasileiros

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Informação faz parte de vazamento de 990 milhões de pessoas com perfil no Facebook

(NurPhoto/Getty Images)

Um banco de dados com o número de telefone, perfil do Facebook, sexo, local de residência e de trabalho de 8 milhões de brasileiros foi colocado à venda em um fórum cibercriminoso como parte de um vazamento que inclui 990 milhões de perfis da rede social. As informações foram confirmadas pela HarpiaTech, consultoria de segurança digital. O episódio destaca a vulnerabilidade de dados sensíveis de brasileiros na internet após uma série de megavazamentos.

Na publicação feita no fórum, o responsável pelo vazamento indica que os dados foram coletados entre 2018 e 2019 por meio de falhas na interface do Facebook.

— Creio que é importante considerar esse caso em perspectiva com o vazamento ocorrido em janeiro. Naquele contexto, vazaram dados de CPF, endereço, score de crédito, etc. O cruzamento das duas bases permite aos fraudadores ter uma visão ainda mais ampla das vítimas, com incremento de possibilidades para o cometimento de fraudes — afirma Filipe Soares, sócio da Harpia Tech.

Na última quarta-feira, um possível novo megavazamento de dados foi alertado pela Psafe, empresa de segurança digital, com informações de quase 100 milhões de contas de celulares. Os dados estavam à venda na deep web, ou a chamada “internet profunda”, que não pode ser acessada por buscadores e navegadores convencionais.

A Psafe foi a mesma empresa responsável por identificar o megavazamento com dados de 223 milhões de brasileiros, incluindo informações de pessoas falecidas. A Polícia Federal investiga este megavazamento mas, até o momento, não se sabe, sequer, de onde teriam vindo os dados, se haveria uma combinação de diversas fontes ou pistas dos hackers.

O GLOBO teve acesso a parte desse vazamento que inclui até mesmo informações sobre modelos analíticos desenvolvidos por empresas de proteção ao crédito e indicam a probabilidade de indivíduos possuírem smartphones ou jogarem jogos pelo computador, entre outras informações como fotos do rosto.

Segundo Filipe Soares, da Harpia Tech, essas informações abrem o leque de possibilidades para criminosos que tiverem acesso a esse tipo de informação. O Banco Central permite que qualquer pessoa possa monitorar quais contas correntes e quantos empréstimos estão vinculados ao seu CPF por meio do site Registrato. O cadastro pode ser feito pelo aplicativo do órgão ou pela internet. Entretanto, o site tem enfrentado instabilidade em razão da alta demanda com os vazamentos recentes.

Com o crescimento do uso de redes sociais, muitos usuários publicam informações relevantes em seus perfis que podem auxiliar fraudadores, como fotos ou dados sobre o seu cotidiano. Com a pandemia, o número de crimes cibernéticos explodiu no Brasil. De acordo com o Relatório Anual 2020 de Atividade Criminosa On-line no Brasil, elaborado pela empresa de cibersegurança Axur, em 2020, o país foi campeão em vazamentos de dados de cartões, por exemplo, acumulando sozinho 45,4% do total de casos registrados no mundo, distante do segundo colocado, os EUA (34,3%).

— Com o número de telefone, é possível chegar a um número de celular, que pode ser utilizado para iniciar um ataque, por exemplo, por um aplicativo de mensagens. Adicionalmente, com o perfil do Facebook, o fraudador pode recuperar fotos e usá-las para abrir contas em bancos e fintechs que requerem selfies para validação do usuário. Claro que muitos dados na rede social são públicos, mas a junção dos diferentes fragmentos de informação viabiliza o ato criminoso. Ao fim, os dois vazamentos geram um amplo ecossistema de favorecimento a ações criminosas — afirmou Filipe Soares, que também é ex-oficial da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

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