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Ponto de vista masculino domina as telas do cinema, constata pesquisa

Filmes brasileiros como Boi Neon, Que Horas Ela Volta? e A Bruta Flor do Querer foram alguns dos longas-metragens analisados

 

Na sala escura do cinema, levados pela experiA?ncia de deslocamento ai??i?? fAi??sica, estAi??tica ou emocional ai??i??, a realidade exibida na tela estabelece relaAi??Ai??es simbA?licas constitutivas. Diante do presente debate sobre o espaAi??o das mulheres na sociedade atual, Ai?? pertinente questionar sobre o quanto elas estA?o representadas nos filmes a que assistimos. Que tipo de vAi??nculos estabelecem com os homens? Quais contextos culturais e marcadores identitA?rios constituem as personagens femininas em narrativas cinematogrA?ficas latino-americanas? SerA? que esses filmes evidenciam possibilidades de empoderamento para as mulheres?
Ai?? notA?rio que qualquer representaAi??A?o Ai?? uma forma de conhecimento elaborado e compartilhado socialmente, que tem um objetivo prA?tico e contribui para a construAi??A?o de uma realidade social comum. EntA?o, como o cinema representa as mulheres? O que este tipo de representaAi??A?o diz a respeito da sociedade e como pode contribuir para a presente discussA?o acerca da hegemonia de uma lA?gica machista e patriarcal?
Com essas questAi??es em mente, foi desenvolvida uma pesquisa na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em um cinema de Belo Horizonte, contemplando filmes latino-americanos exibidos na programaAi??A?o regular entre setembro de 2015 e junho de 2016. A partir da premissa de que pelo menos uma personagem feminina deveria ser mencionada na sinopse, fez-se o recorte de 15 filmes: trA?s argentinos, um chileno e 11 brasileiros.
A pesquisa, que realizou 54 entrevistas, ao menos trA?s pessoas por filme ai??i?? a maior parte um pA?blico acima dos 40 anos ai??i??, constatou que a grande maioria dos longas-metragens exibidos no perAi??odo sA?o construAi??dos sob o viAi??s masculino. Apenas dois deles trazem personagens femininas em posiAi??A?o de domAi??nio e trA?s apresentam a perspectiva de empoderamento feminino em suas personagens. Ai?? evidente que na maioria dos filmes recentes da produAi??A?o latino-americana as mulheres sA?o invisibilizadas, nem sequer tA?m nome e a funAi??A?o dramA?tica serve prioritariamente para dar suporte aos personagens masculinos.
Em boa parte da produAi??A?o, as mulheres desempenham papAi??is de pessoas submissas e resignadas, destinadas a exercer apenas funAi??Ai??es de mA?es, esposas e donas de casa. Ao mesmo tempo em que essa representaAi??A?o expAi??e o peso da tradiAi??A?o, que reserva Ai??s mulheres o “lugar” subjugado na famAi??lia e na sociedade, esta representaAi??A?o ai??i?? em geral, de uma mulher frA?gil, insegura e com baixa autoestima ai??i?? acaba por reforAi??ar o mito do amor romA?ntico de uma sociedade incompatAi??vel com o presente.
Entre os 15 filmes analisados, dois deles tA?m personagens femininas como prostitutas. Nestes casos, a mulher surge reduzida a um objeto sexual, o que, embora possa servir como denA?ncia, incorre no risco de criar uma representaAi??A?o que reforAi??a um sentido de feminilidade associado Ai?? atratividade ou disponibilidade sexual para os homens.
Um outro grupo de personagens femininas, com caracterAi??sticas de firmeza e determinaAi??A?o, pode ser, de modo geral, dividido entre as ai???desviantesai??? e as transformadoras. No primeiro caso, sA?o personagens que fogem dos padrAi??es estabelecidos: a mulher infiel ao marido; a que nA?o tem ai???instinto maternalai???; a mA?e solteira que trabalha como caminhoneira; a mulher grA?vida que seduz um desconhecido para satisfazer seu prA?prio desejo sexual; a obcecada que coloca em risco a sua gravidez; a mulher falsa, cruel e dissimulada; as desonestas, gananciosas e manipuladoras; as liberadas e abertas ao sexo casual; a lAi??sbica que nA?o abre mA?o de assumir publicamente seu relacionamento; e a jovem traAi??da e abandonada que decide levar adiante a gravidez nA?o planejada, mas depende financeiramente de seu pai e, emocionalmente, de um amigo. Em apenas dois filmes as figuras femininas encarnam princAi??pios Ai??ticos, sA?o questionadoras do status quo e lutam pelo empoderamento. Ai?? o caso de JAi??ssica, do filmeAi??Que horas ela volta?, e Nise, sobre a psicanalista retratada no filme biogrA?fico de Roberto Berliner.
Foi constatado, assim, que quase todas as personagens femininas retratadas nas telas nA?o tA?m uma independA?ncia narrativa em relaAi??A?o aos homens, desempenhando papAi??is pouco relevantes nos contextos culturais que as constituem ai??i?? sejam eles familiares, profissionais, polAi??ticos ou sociais. Em 10 casos, as personagens femininas nA?o tA?m histA?ria ou caracterAi??sticas prA?prias.
Outro aspecto que merece atenAi??A?o Ai?? o fato de que, em dois casos ai??i??Ai??O clubeAi??eAi??Mulheres no poderAi??ai??i??,Ai?? o comportamento das protagonistas reproduz modelos masculinos construAi??dos sobre os preceitos patriarcais. Assim, 12 dos 15 filmes analisados nA?o constituem uma representaAi??A?o que indica a possibilidade de empoderamento e superaAi??A?o das relaAi??Ai??es desiguais de gA?nero que prevalecem na sociedade latino-americana.
Em apenas trA?s obras a representaAi??A?o de mulher apresenta situaAi??Ai??es complexas, enunciaAi??A?o de diA?logos contextualizados e bem-elaborados, desempenhando um papel com voz e visibilidade, capacidade de aAi??A?o e de decisA?o.Ai??Boi neon,Ai??Nise, o coraAi??A?o da loucuraAi??eAi??Que horas ela volta?Ai??apresentam abordagem mais progressista em relaAi??A?o Ai?? mulher e, em todos, sA?o elas que desafiam valores estabelecidos, seja pela inversA?o de papeis atribuAi??dos a mulheres e homens (Boi Neon), em contextos profissionais (Nise) e no despertar da consciA?ncia sobre as desigualdades sociais (Que horas ela volta?).
O que se pode constatar Ai?? que a recente produAi??A?o latino-americana e, em especial, a brasileira, estA? longe de oferecer um tipo de representaAi??A?o da mulher que instigue reflexA?o sobre o modelo social vigente e contribua para sua transformaAi??A?o.
Ai??
Christiane Luce Gomes, professora da UFMG, pesquisadora da Fapemig (PPM) e do CNPq. Coordenadora do grupo Ludicidade, Cultura e EducaAi??A?o (Luce), da UFMG
Obras analisadas:
Que horas ela volta?Ai??
Brasil, 2015
direAi??A?o de Anna Muylaert
O clubeAi??
Chile, 2015
direAi??A?o de Pablo LarraAi??n
Ai??
Sem filhosAi??
Argentina/Espanha, 2015
direAi??A?o de Ariel Winograd
Ai??
Boi neonAi??
Brasil, 2016
direAi??A?o de Gabriel Mascaro
Ela volta na quintaAi??
Brasil, 2016
direAi??A?o de AndrAi?? Novais
Ai??
PapAi??is ao ventoAi??
Argentina, 2016
direAi??A?o de Juan Taraturo
Para minha amada mortaAi??
Brasil, 2016
direAi??A?o de Aly Muritiba
A bruta flor do querer
Brasil, 2016
direAi??A?o de Andradina Azevedo e Dida Andrade
Nise, o coraAi??A?o da loucuraAi??
Brasil, em 2016
direAi??A?o de Roberto Berliner
Ai??
Prova de coragemAi??
Brasil, 2016
direAi??A?o de Roberto Gervitz
Mulheres no poderAi??
Brasil, 2016
direAi??A?o de Gustavo Acioli
Amores urbanosAi??
Brasil, 2016
direAi??A?o de Vera Egito
Ai??
Roteiro de casamentoAi??
Argentina, 2016
direAi??A?o de Juan Taraturo
O outro lado do paraAi??soAi??
Brasil, 2016
direAi??A?o de AndrAi?? Ristum
Ponto zero
Brasil, 2016
direAi??A?o de JosAi?? Pedro Goulart

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Publicação: Redação Brasil (m)

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