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Nave alienígena ou asteroide? Oumuamua pode não ser nenhum dos dois

Pesquisa de astrônomos de Harvard sugere que objeto estranho no espaço pode ser obra de ETs — mas não há nada concreto para comprovar a teoria

São Paulo — Uma pesquisa publicada por dois professores de Harvard na última semana ligou o sinal de alerta em quem acredita em alienígenas. Segundo artigo (PDF) assinado por Shmuel Bialy e Abraham Loeb, um objeto interestelar chamado Oumuamua poderia ser uma espaçonave extraterrestre de passagem por nosso sistema solar. É só uma possibilidade, claro. Ainda assim, joga uma luz em cima de um corpo espacial misterioso que pode não ser nem uma nave e nem um asteroide, mas sim um cometa, que é bem diferente dos dois.

Identificado originalmente como 1I/2017 U1, o Oumuamua foi descoberto em outubro do ano passado e despertou a curiosidade de astrônomos. Mas não por ter enviado algum tipo de sinal ou algo parecido para a Terra. Muito pelo contrário, na verdade, visto que nenhuma tentativa de “comunicação” foi detectada nas buscas de cientistas. O que chamou a atenção foi sua origem.

“Era o primeiro visitante interestelar do nosso sistema solar”, disse Helena Morais, professora no Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE)da Unesp e doutora em Dinâmica do Sistema Solar pela Universidade de Londres. Ou seja, era algo vindo de fora da nossa vizinhança — e que, ainda por cima, foi embora em alta velocidade pouco depois de ter sido descoberto.

“Oumuamua pode ser uma sonda totalmente operacional enviada intencionalmente à vizinhança terrestre por uma civilização alienígena”, escreveram os astrônomos no artigo, que foi submetido ao jornal científico americano Astrophysical Journal Letters.

Os autores da tese são Abraham Loeb, professor de astronomia, e Shmuel Bialy, um pós-doutor, ambos estudiosos de Harvard.

A teoria baseia-se na “aceleração excessiva” do objeto ou em seu aumento inesperado de velocidade, segundo os pesquisadores. A estrutura escura chegou a alcançar 315.000 quilômetros por hora e saiu do nosso sistema solar em janeiro de 2018.

Além disso, Oumuamua apresenta uma rotação rápida e uma variação de brilho de até dez vezes, bem mais intensa do que qualquer outra já observada.

Ainda segundo os astrônomos, a suposta nave espacial tem um formato semelhante ao da nave LightSail-1, um projeto de vela solar desenvolvido pela Sociedade Planetária, com sede nos Estados Unidos, e que se assemelha a uma pipa.

“A tecnologia light-sail pode ser usada de forma abundante para o transporte de cargas entre planetas ou entre estrelas”, dizem os cientistas.

Objeto antigo

Outro estudo publicado em maio por cientistas do Brasil e da França sugere uma tese diferente sobre a origem do Oumuamua. Com base em uma simulação computacional, a publicação indicou que ele foi formado naturalmente em outro sistema e capturado por forças gravitacionais quando nosso sistema solar se formou de uma nuvem de gás e poeira, há cerca de 4,5 bilhões de anos.

“Este é um forte candidato a objeto mais velho no sistema solar”, disse o astrônomo Fathi Namouni, do Observatório de Côte d’Azur, na França.

O estudo foi publicado na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society: Letters. A pesquisa foi realizada por Fathi Namouni e Helena Morais, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Rio Claro.

Segundo Morais, o Oumuamua não se instalou permanentemente na órbita solar porque sua velocidade é tão alta que a atração do Sol foi suficiente apenas para curvar sua trajetória, tornando sua órbita um pouco mais hiperbólica. “Precisaria ter vindo com menos velocidade para que a trajetória se tornasse elíptica e fosse assim capturado pelo sistema solar”, afirmou a cientista.

O asteroide com trajetória retrógrada teria sido atraído para o campo gravitacional de Júpiter no final da época de formação dos planetas.

“Esta descoberta nos conta que o sistema solar provavelmente pode ser lar de mais asteroides extrassolares e cometas capturados mais cedo em sua história. Alguns destes objetos podem ter colidido com a Terra no passado, possivelmente carregando água, biomoléculas ou até mesmo matéria orgânica”, acrescentou Morais.

Mas é uma nave ou não é?

Bialy e Loeb não têm provas concretas de que o Oumuamua é, de fato, uma espaçonave. “Essa interpretação das propriedades intrigantes dele é puramente científica e baseada em provas”, explicou Loeb, que preside o departamento de astronomia de Harvard, Eu sigo a máxima de Sherlock Holmes: ‘quando você exclui o impossível, tudo o que sobra, por mais improvável que seja, pode ser verdade’.” Ou seja, é uma hipótese que não pode ser negada com base no que se sabe.

Os dois pesquisadores especulam que o objeto pode ser, na verdade, uma vela solar, uma forma de transporte que se move usando a radiação do sol como “vento”. O possível comprimento do Oumuamua, de 800 metros, até bate com o necessário para uma estrutura do tipo funcionar. Mas a espessura dele — que não poderia passar de um milímetro para ser uma vela solar — permanece uma incógnita. Como o objeto não girava, não foi possível medi-lo com base no reflexo da luz do sol, como foi feito com o comprimento.

E que outras provas eles têm?

O comportamento estranho, a falta de rotação e as medidas misteriosas não são as únicas particularidades em torno do Oumuamua que embasaram a atenção dos dois astrônomos. O formato foi outro ponto: pelo reflexo da luz solar, acredita-se que ele tenha um corpo mais alongado do que qualquer outro asteroide ou cometa já visto.

Sua órbita também é diferente: nada de elipses, como é tradicional. Em vez de fazer uma rota circular como uma outra rocha qualquer, o objeto segue uma hipérbole, como explicou o pesquisador Jorge Carvano, do Observatório Nacional. Só não se sabe onde estão as pontas dessa curva — ou seja, sua origem e seu destino.

Fora isso, inicialmente não foi possível nem mesmo definir o Oumuamua como cometa. Um corpo celeste do tipo é classificado assim graças ao rastro de vapor de gelo deixado para trás conforme se move — uma cauda, inexistente. Essa evaporação também influenciaria no giro que, aparentemente, não acontecia. Ele se tornou, então, um asteroide, que é um simples corpo rochoso.

No entanto, em uma análise recente publicada no jornal científica Nature, pesquisadores identificaram uma característica que permite classificá-lo como cometa: a aceleração não-gravitacional. É um tipo de movimento que não pode ser atribuído à força gravitacional exercida pelo sol, por planetas ou por outros objetos do sistema solar, como explica uma reportagem do site Space. Umas das dúvidas levantadas pelo peculiar objeto, portanto, até foi resolvida. Mas as respostas para as outras questões seguem em aberto.

Fonte: Portal Exame

 

Publicação: Redação Brasil (m)

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